15/10/08

HMC - Aula 6

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
4.3. Conferências dos aliados
4.4. Organização das Nações Unidas

Depois da guerra terminar, e mesmo antes, têm lugar uma série de reuniões com vista a organizar o mundo depois do conflito. A primeira dá-se entre Franklin Roosevelt e Winston Churchill, em Agosto de 1941, a bordo de um navio de guerra no meio do Atlântico. Numa altura em que Hitler bombardeava Inglaterra e os EUA ainda não tinham entrado no conflito, a reunião serviu para discutir como ficaria o mundo depois da guerra e para a assinatura da "Carta do Atlântico", onde ambos reiteram o Liberalismo e afirmam não ter desejos expansionistas.

A segunda reunião dá-se em Janeiro de 1942, nos EUA, e dela fazem parte 24 países que declararam guerra à Alemanha e à Itália, incluindo a União Soviética. Desta reunião sai um documento chamado "Declaração das Nações Unidas contra o Nazismo e Fascismo". Antes do fim da guerra, há mais uma reunião, em 1943 entre os Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Soviética, EUA, Reino Unido e China onde são tomadas várias decisões.

Todas estas reuniões para demonstrar que a partir do momento que começa a guerra, começam também as negociações.

Da II Guerra Mundial, saem vitoriosos a URSS, os EUA e o Reino Unido, cada um com a sua figura de proa. O primeiro é Winston Churchill, primeiro-ministro britânico. Churchill provém de uma família nobre inglesa, é um lorde britânico com educação na marinha real que depois vem para o Reino Unido e se torna jornalista. Churchill parte depois para África, para lutar na guerra dos Boers, que opôe o Reino Unido à Holanda por questões relacionadas com as colónias. Aí, foi preso pelos Boers e relatou o que se passou na prisão, tornando-se famoso em Inglaterra. Entra na política, é eleito deputado e nomeado chefe da marinha britânica. Churchill participa depois na I Guerra Mundial, dirigindo a marinha britânica contra os turcos, numa batalha em que os britânicos foram dizimados pelos turcos, perdendo mais de 20.000 soldados.

No seguimento desta vergonhosa derrota, Churchill demite-se e faz-se voluntário para combater em Flandres, na lama, como forma de se redimir do seu erro. Recupera assim algum prestígio entre os britânicos e regressa à política, entrando agora no Partido Conservador e sempre com posições à Direita. Churchill pode ser considerado um visionário no que respeita à II Guerra Mundial, na medida em que sempre alertou os britânicos para esta e se opunha à política de apaziguamento de Chamberlain.

Por conseguinte, Churchill é eleito para formar gabinete e ser primeiro-ministro no governo de unidade nacional decorrente da guerra. Porém, uma vez terminada a guerra, Churchill organiza de novo eleições, em 1945 mas perde para os Trabalhistas, que organizam o governo pós-guerra no Reino Unido. Governo esse que não corre bem e como tal os britânicos elegem Churchill em 1951 para que em 1955 ele se demita, já com 80 anos de idade. Churchill foi Prémio Nobel da Literatura em 1953 com o seu livro "Memórias da Segunda Guerra Mundial", onde num discurso acessível e jornalístico, relata as suas vivências de guerra.

A segunda figura que sai vitoriosa da II Guerra Mundial é Franklin Roosevelt, presidente norte-americano, que não chega a viver para ver o sucesso dos aliados no conflito pois morre em Abril de 1945. Roosevelt foi o único presidente americano eleito quatro vezes e é um intelectual que estudou em Harvard. Em 1932, vence a sua primeira eleição oferecendo um programa de recuperação dos EUA após a Grande Depressão. A sua receita era o "new deal": adopção de medidas socialistas de investimento público, crédito pedido em nome dos cidadãos para fazer grandes obras públicas. Com essas obras, Roosevelt conseguiu empregar muitos trabalhadores e por conseguinte aumentar a procura e a necessidade de produção. Os EUA saem, assim, da crise.
Em 1936 é reeleito por mais quatro anos e em 1940, com a aproximação da guerra, os americanos questionam-se mas não hesitam em atribuir-lhe, pela primeira vez na sua História, um terceiro mandado. E em 1944 já ninguém questionou quando Roosevelt se candidata de novo a um quarto mandato e continua a conduzir os EUA até ao fim da guerra e da sua própria vida.

Após a sua morte, os EUA introduziram uma emenda na Constituição que limita a presidência do país a dois mandatos de quatro anos. Este facto é positivo na medida em que há uma renovação mas negativo pois o segundo mandato, os últimos quatro anos, são já "coxos", ou seja, a decisão do presidente é já pouco valorada e apenas se espera pelo seu substituto.

A terceira figura vencedora da guerra, líder na URSS, é Josef Stalin, que nasceu na Geórgia e frequentou o seminário para se tornar padre, muito por causa das precárias condições económicas e sociais da sua família. Desistiu do seminário e saíu em apoio de Lenine e da Revolução Bolchevique, tendo sucedido a Lenine em 1928 como Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, após uma sangrenta e conflituosa luta pela sucessão.

Durante a II Guerra, Stalin nunca foi chefe de governo nem presidente de Estado: teve alguns cargos militares mas actuou sempre como secretário geral do Partido Comunista. Instalou na URSS uma revolução burocrática, uma ditadura política do Partido Comunista, juntamente com um culto de adoração à sua figura, à medida dos grandes líderes totalitários. Stalin eliminou todos os seus oponentes, todos os que tinham uma visão diferente da sua, mandando-os para a Sibéria e livrando-se assim da sua influência. Um destes generais afastados é uma das grandes figuras do socialismo, Trotsky.

Este afastamento dizia respeito não só a altos cargos do exército como também a dissidentes do próprio exército, que era organizado por Trotsky, e a camponeses. Os camponeses incluem-se neste grupo na medida em que a nacionalização das terras por vezes contava com alguma oposição dos seus proprietários: estes eram enviados para a Sibéria, para aldeias onde estavam numa "prisão a campo aberto": podiam sair dessa aldeia quando quisessem mas o frio e as condições adversas tornavam essa fuga impossível. Não se tratavam, por isso, de campos de concentração, como na Alemanha ou nos EUA, mas antes de um castigo a viver isolado.

Neste sentido, são muitas as versões sobre os mortos de Stalin: embora se falasse de 15 ou 7 milhões, a verdade é que quando Ieltsin abriu os arquivos do Kremlin ao Ocidente, os mortos causados pelas políticas de Stalin não excedem os 3 milhões. Uma só morte que fosse tornaria Stalin um homicida mas os números reais estão bem distantes da propaganda ocidental. Seja como for, Stalin e a URSS foram decisivos na vitória dos Aliados na Europa e são um dos vencedores da guerra.

Assim, os três decidem o futuro do mundo depois de terminar a II Guerra Mundial. Churchill é mais tradicional, baseado em costumes conservadores e por isso quer restabelecer relações anteriores e equilíbrios pré-guerra. Dessa forma, apoia Charles de Gaulle de forma a que a França também se restabeleça na Europa e para que conjuntamente com o Reino Unido a controlem. Por outro lado, Churchill quer travar a expansão soviética, não lhes permitindo que entrem na Europa Ocidental. Churchill quer então travar o comunismo e restabelecer o equilíbrio anterior à guerra.

Já Stalin tem como grande objectivo recuperar o território perdido na I Guerra Mundial e controlar o chamado "corredor sanitário". Este era um grupo de países que serviam de tampão à expansão soviética pois estavam controlados por forças ocidentais com esse mesmo objectivo. Eram eles a Polónia, Checoslováquia, Roménia, Hungria e Bulgária. Stalin instala o exército soviético nesses países, impondo aí governos comunistas. Tem assim como principais objectivos no pós-guerra a expansão comunista e a recuperação do império russo.

Roosevelt quer recuperar o idealismo de Wilson, criando um novo mundo governado pela lei. Parte dele a ideia de escrever uma nova constituição para o mundo, que passa a chamar-se "Carta das Nações Unidas". Deste documento constam leis básicas implementadas por uma instituição muito mais firme e actuante do que a Sociedade das Nações, a ONU, Organização das Nações Unidas.

Para a decisão do que iria ser o mundo pós-guerra, três conferências são essenciais. Em primeiro lugar, a Conferência de Teerão, entre 28 Novembro e 1 Dezembro de 1943, onde Stalin pede a abertura da frente ocidental para derrotar os nazis e Roosevelt fala da ONU. Escolheu-se Teerão por ser uma cidade onde os aviões não chegariam e também por ser um local com um clima agradável, de forma a que Roosevelt, cuja saúde era já débil, não decaísse.

A outra conferência decorreu entre 4 e 11 de Fevereiro de 1945 em Ialta, na Crimeia, na URSS. Aqui nunca se saberá ao certo o que aconteceu: consta-se que Stalin e Churchill combinaram zonas de influência, estabelecendo um mapa do mundo pós-guerra. Churchill negou a existência destas divisões mas consta-se que escreveu informalmente num guardanapo, durante a refeição, o destino dos vários países, dividindo-os entre ocidente e URSS. Consta-se também que Stalin nunca respondeu afirmativamente a essa divisão mas que sorriu, concordando. Assinou-se nesta conferência a Declaração sobre a Europa Libertada.

Nessa declaração, decide-se que os países libertados dos nazis e fascistas vão fazer eleições livres e escolher qual o regime que querem ter. O que aconteceu foi que de facto houve eleições mas quem ganhou em cada país foi a côr respectiva do exército que lá estava na altura. O caso mais flagrante é o da Europa de Leste: em todos os estados estava estacionado o exército vermelho, à excepção de um, a Grécia. Em todos os estados ganhou o Partido Comunista, à excepção da Grécia.

Assim, os três saem satisfeitos da conferência de Ialta: Roosevelt com a ONU, Stalin com as zonas de influência e apenas Churchill, embora satisfeito, crê que Roosevelt se está a deixar levar por Stalin e a sua perfídia.

Por fim, e já sem Churchill que não foi eleito nem Roosevelt que faleceu, tem lugar a Conferência de Potsdam, entre 17 Julho e 2 Agosto de 1945, onde é discutido o que fazer com a Alemanha que surge depois da guerra. Este país é então dividido em quatro esferas de influência: a leste a soviética, a norte a americana, ao centro o Reino Unido e ao sul a França. Berlim, embora situada no coração da zona de influência soviética, é também dividida em quatro zonas de ocupação. É nesta conferência que é criado o Tribunal de Nurenberga, para julgar os crimes nazis e é também apenas nesta altura que a URSS declara guerra ao Japão. Nesta altura, o Japão encontrava-se já fragilizado e foi fácil aos soviéticos conquistarem algumas ilhas e penínsulas do extremo oriente, territórios que ainda hoje continuam sob disputa.

Entre Abril e Julho, 40 países aliados contra o nazismo e o fascismo juntam-se em São Francisco para adoptar a Carta das Nações Unidas, um documento com 111 artigos. A 24 de Outubro a Carta é aprovada e com ela é aprovada a institucionalização da ONU. É este o dia de nascimento da organização que nasce com o objectivo principal de preservar a Paz, sendo que para isso é preciso assegurar também a prosperidade económica. Para isso, é preciso a cooperação conjunta de todos os estados envolvidos.

A ONU é considerada a estrutura, Parlamento do mundo, Assembleia Geral de todos os povos onde todos os estados têm um voto e têm o mesmo valor para efeitos de votação. Porém, a Assembleia Geral da ONU apenas discute, vota e aprova uma recomendação sem qualquer carácter vinculativo. O Conselho de Segurança da ONU é a instituição que deve preservar a Paz como princípio aristocrático. É constituído por 15 estados, sendo 5 estados permanentes, precisamente aqueles que saíram vencedores da guerra: EUA, Rússia, China, França e Reino Unido. Qualquer um destes tem o poder de veto pelo que nenhuma decisão pode ser tomada sem o acordo destes cinco estados. Durante a Guerra Fria, o Conselho de Segurança quase não existiu, uma vez que a URSS vetava tudo o que provinha dos EUA e vice-versa. Aquando da China maoísta, este país era representado apenas pela pequena e insignificante península de Taiwan, facto que só se alterou com a abertura da China ao capitalismo.

O Conselho Económico e Social da ONU é constituído por 54 estados membros e preocupa-se com a cooperação, o comércio e o progresso, de forma a manter a Paz: para haver Paz tem que se eliminar o conflito, que tem a maior parte das vezes uma causa económica e como tal deve-se eliminar a pobreza. Pode-se dizer que este conselho tem muito pouco sucesso, uma vez que a meta traçada para os países ricos doarem 1% do seu PIB aos países pobres nunca foi cumprida.

O Conselho de Tutela da ONU faz a gestão de recém-estados que ainda não têm condições de formar governo, como por exemplo o caso de Timor. Quanto ao Conselho dos Direitos do Homem, discute sobre a situação dos direitos humanos no mundo, tendo sido, nestes últimos anos, os EUA o país mais discutido devido à situação de Guantanamo.

A ONU tem um Secretário Geral, chefe dos burocratas e que se tem vindo a tornar cada vez mais um cargo político de maior importância no mundo, com um mandato de cinco anos com possibilidade de uma renovação. Apenas Boutros Gali, por se opor à intenção bélica dos EUA na ex-Jugoslávia, não foi reconduzido ao segundo mandato, tendo sido substituído pelo pro-americano Kofhi Anan que apenas foi afastado quando se descobriu que o seu filho desviava dinheiro dos fundos de ajuda humanitária da ONU. Entre outros secretários gerais, Kurt Weildheim, um austríaco que após os seus dois mandatos se veio a descobrir que esteve ao lado de Hitler no exército nazi e o actual, o coreano Ban Ki-Moon.

Polémicas à parte, a ONU tem cerca de 50 instituições e organizações associadas, ligadas ao trabalho, aviação civil, comércio, património, crianças, finanças, etc. Entre elas a UNESCO, UNICEF e o Tribunal Internacional de Haia. Este tribunal julga apenas estados que aceitem e reconheçam a soberania deste tribunal. Tem no entanto pouca influência uma vez que um estado, como a Indonésia em relação a Timor, pode alegar que se trata de um conflito interno e por isso fora da alçada da ONU.

Em 2000 institui-se o Tribunal Internacional Penal, que visa castigar o crime e julgar as pessoas individualmente. Os EUA não fazem parte deste tribunal e neste sentido, os países seus aliados, entre os quais Portugal, assinaram uma declaração formal de que nunca perseguirão qualquer americano neste tribunal. Trata-se de um organismo que começa com algumas deficiências e que serão precisos vários anos para que funcione na sua plenitude.

Para além destes tribunais internacionais, há também o Tribunal de Justiça da UE e o Tribunal Europeu dos Direitos dos Homens, em Estrasburgo. Aqui, qualquer cidadão de qualquer país estado-membro tem acesso ao tribunal e é o único que aceita uma causa individual contra qualquer um dos estados membros.

Voltando ao final da II Guerra Mundial, todos juram nunca mais quererem guerra e para a manutenção da Paz mundial formam a Organização das Nações Unidas e as suas dependências.

MIC - Aula 1

SECÇÃO 1: TEORIAS E ABORDAGENS GERAIS ÀS QUESTÕES DE iNVESTIGAÇÃO.
I- Principais paradigmas.
No que respeita à investigação aplicada, a informação que recolhemos não é uma operação que dependa directamente ou sequer de cada um de nós: por exemplo, muitos quadros políticos e administrativos suportam decisões com as quais não estão de acordo mas que se baseiam em estudos.

Desta forma, temos primeiro que identificar o que procuramos e em função disso entender a linguagem do que nos pediram: a clareza do problema é fundamental para a investigação. Depois, há-que ter a noção do tipo de informação de que preciso para saber que tipo de elementos vou recolher. Trata-se de saber onde está a informação e de que forma, uma vez que os documentos não existem exclusivamente para nós: temos de saber como foram construídos para saber o que podemos tirar para nós e aí fazer a nossa análise secundária, sabendo para quê que os documentos nos podem servir.

Em relação aos estudos de mercado, é preciso, ao pedi-los, saber o que se quer pedir para que o resultado não saia frustrado: temos que criar uma relação de entendimento com indivíduos que não falam a mesma linguagem que nós.

Por fim, há situações em que temos nós que lidar com o sujeito e procurar a informação, perguntando directamente. Trata-se de uma relação humana e social, com emoções, pré-conceitos, empatias, etc. Por vezes as ideias estão claras mas não se consegue comunicar. Pierre Bordieu afirma mesmo que "A maldição das ciências humanas é terem que lidar com um objecto que fala". Esta frase significa que temos que lidar com indivíduos que não são iguais a nós.

Após decidida a perspectiva de abordagem ao documento, há-que catalogar a informação, produzindo dados estatísticos de análise qualitativa e quantitativa que combinarão o sentido do documento com aquilo que procuramos. Ou então, ir à procura de um dado específico e não médio, quando queremos perceber o que foge à realidade. Os dados não permitem todos o mesmo tipo de tratamento: é importante "não somar batatas com feijões a não ser que se esteja a contabilizar quantos vegetais."

Parte-se então para a interpretação dos dados, onde temos que voltar ao problema, uma vez que a informação, por vezes, diz-nos coisas que não estávamos à espera. Numa perspectiva, produzimos ciência, noutra produzimos informação válida mas não necessariamente ciência. Porém, o que quer que se faça deve ser validado cientificamente, não querendo com isto dizer que a ciência seja a melhor explicação de todas.

Durante muito tempo viveu-se na crença de que o paradigma positivista, no qual a crença de uma explicação única para determinados fenómenos apelava a um acesso absoluto à verdade, era a abordagem mais respeitada. Sabemos, porém, que a ciência não é conhecimento absoluto e que dentro da mesma ciência há interpretações diferentes, que variam consoante o lugar, o cientista ou as provas. Perguntamo-nos agora se será a ciência o melhor conhecimento que podemos construir, sendo que o valor da ciência é diferente do valor que a sociedade atribui à ciência.

No entanto, a ciência é o único conhecimento que é provado e como sabemos, cada problema tem o seu contexto e o mesmo problema pode ser perspectivado de várias maneiras: as condições mudam muito conforme as realidades que estudamos, pelo que a ciência tem que racionalizar as distâncias.

Afastamo-nos cada vez mais de Durkheim, que diz que se deve tratar os factos sociais como coisas, ou seja, as pessoas como um objecto de análise. Nada mais errado: mesmo que nos distanciemos do objecto, ele vai sempre reagir à abordagem. Devemos ser racionais, procurando manter a ideia de que o objecto é uma pessoa que reage. Esta racionalização nas ciências sociais é uma matéria muito complicada de alcançar: toda a observação em ciências sociais é uma relação social directa ou indirecta, de nós com os outros. Eu estou sempre a interpretar, pelo que o Positivismo não pode ser hoje em dia defendido, nem nas ciências naturais.

Temos então sempre uma opinião sobre tudo o que diz o cientista social, tendo a ciência uma validade interna que é geralmente mais valorizada mas que possui regras próprias. É o senso comum que faz o nosso dia-a-dia, sem o qual não existiríamos e a partir do qual seleccionamos informação. Isto vem contradizer o que diz Durkheim, que aponta para a reificação do poder científico, dando um poder social aos cientistas através de regras do método sociológico. Durkheim diz que se há uma ordem natural tem que haver uma ordem social e classifica a sociologia como uma ciência de síntese de todas as outras ciências.

Concretamente, Durkheim estuda o suicídio e classifica-o como um acto solitário cuja explicação vinha da Psiquiatria. Durkheim explica que quanto mais desenvolvido for o país onde se encontra a pessoa, maior a taxa de suicídio o que, entre outros valores estudados, o leva a concluir que o suicídio é uma doença social que depende da anomia, ou seja, o grau de integração ou desprendimento do indivíduo na sociedade. Nas sociedades mecânicas, por oposição às sociedades orgânicas, a taxa de suicídio é maior.

A ciência é um conhecimento específico, com regras, com base na razão. É um modo de ver e interpretar o mundo em que o conhecimento é construído por demarcação com outras formas de conhecimento mas onde a ruptura nunca é absoluta. A corrente científica neo-marxista aponta de novo para o conceito de classe social, embora não existam classes visíveis e separadas mas continuam a explicar estilos de vida em sociedade. As correntes de Marx não são as dominantes porque toda a interpretação de Marx é no sentido político de uma mudança de uma determinada sociedade. Marx tem a perspectiva do conflito, do poder, onde a luta é fundamental na sua perspectiva sobre a sociedade. Já outros perspectivam a mudança através de uma relação harmoniosa: a função entre os grupos sociais, o Funcionalismo.

Através das correntes funcionalistas, estuda-se como podem funcionar em harmonia as classes sociais, tentando perceber para resolver o conflito. Se o conflito marxista leva à revolução, a função leva à harmonização. Os funcionalistas defendem certos momentos, como por exemplo o Carnaval, em que a sociedade pode transgredir as normas estabelecidas. Voltando a Marx, este proclama que o proletariado deve entrar em revolução pois não existe mais capital do que força. Algumas das suas constatações, num determinado tempo, são válidas.

Em relação à dicotomia hermenêutica/ holismo, não existe neutralidade mas é bom que não se caia na total hermenêutica, que é o outro extremo, ou seja, a explicação de tudo pela fenomenologia, pelo existencialismo. As ciências sociais situam-se entre os holísticos e os paradigmas singulares hermenêuticos, caindo, como diz Bourdieu, no "senso comum doutro".

Quanto aos investigadores e cientistas, todos têm um valor social, uns mais que os outros e os que têm maior poder intimidam por isso mesmo. A observação é uma relação social de poder de saber especializado, científico. Assim, é também pela crítica holística que se defende que é preciso explicar. A ruptura com o senso comum significa precisamente que temos que estar mais atentos ao próprio senso comum com o qual rompemos. Ou seja, a estrutura enquanto conjunto de valores, normas, comportamentos e instituições da sociedade que não vemos mas que temos que perceber onde estão. A estrutura influenciando os sujeitos e as práticas e vice-versa. O cientista social deve estar atento a essa relação, ou seja, ao senso-comum.

As estruturas são assim mostradas pelos indivíduos e suas acções: "As estruturas sociais são estruturadas e estruturantes", diz-nos mais uma vez Bourdieu. A. Giddens refere ainda que "Há uma dupla estruturação das estruturas. As estruturas sociais são duais e só existem através dos sujeitos." Assim, os sujeitos são reflexivos, ou seja, exprimem as estruturas e mudam-nas.

Quanto à razão, como paradigma poderemos prestar atenção às teorias sobre o desenvolvimento. Rostow define-nos teorias etnocêntricas do desenvolvimento, modelo que serve de base ao mundo da indústria, por exemplo. No entanto, há teorias que falam da corrupção e exploração dos países em desenvolvimento, apontando-os não como atrasados mas como explorados e reprimidos. Isto significa que temos que olhar para a realidade e vesti-la conforme as suas particularidades, confrontando o conhecimento com a realidade e vendo se a realidade mudou. Os modelos não podem ser enfiados à força na sociedade.

A razão significa uma ruptura com o que parece evidente, perguntando sempre sobre o que está construído (a boa ciência está na pergunta e não na resposta) e colocando uma hipótese que esteja sempre sujeita à prova e à refutação: as hipóteses têm sempre que resistir ao seu contrário.

14/10/08

Dissertação de Mestrado

(explicado na primeira aula de Ciência Política, por Milan Rados)

Um boa dissertação de Mestrado poderá basear-se no livro de "Umberto Eco", "Como se Faz uma Tese em Ciências Humanas". Aqui, o autor explica o que é um trabalho científico.

Um trabalho científico deve obedecer a quatro categorias:
1- Tema
2- Construir um Problema
3- Hipótese
4- Variáveis (instrumentos e ferramentas)

O principal passo é a boa formulação do problema.
Ex: "Porque razão perdeu Francisco Assis as eleições para a Câmara do Porto?"

Parte-se depois para a formulação de uma hipótese, que será uma resposta à pergunta formulada no problema:
Ex: "Perdeu porque falhou na Comunicação Política"

Por fim, formula-se vários elementos ou provas que sustentam determinada afirmação, feitas segundo o método científico:
Ex: "Falhou na comunicação política pois a sua mensagem não era a adequada.

A organização de todos estes campos constitui uma boa dissertação. Uma dissertação de Mestrado não é uma tese mas antes a elaboração de um problema. O doutoramento, sim, é a defesa de uma tese. Pegando no exemplo acima, à pergunta formulada é preciso definir primeiro o Porto, contexto em que se insere o candidato, explicar o que é o socialismo, o PS, o PS no Porto, todas as histórias e notícias relacionadas e depois partir para o desenvolvimento da resposta. A dissertação será sempre exposta perante um júri.

Quanto à estrutura do trabalho, este deve ser constituído por Introdução, Desenvolvimento e Conclusão. Na Introdução, que deve ser feita apenas no fim, explica-se qual é o tema, objecto de investigação, elaborar o problema e explicar o método utilizado (método científico, análise política, análise quantitativa e qualitativa). A intodução nunca deverá ocupar mais de 30% do total da dissertação.

Quanto ao desenvolvimento, este é a análise propriamente dita, constituindo dois terços do trabalho. Já a conclusão, deve ser curta, a base da investigação e directa, não ocupando mais de uma ou duas páginas. Para efeitos de contagem, a dissertação deve ser escrita num máximo de 100 e mínimo de 5o páginas, sem anexos. Folhas A4, espaçamento 1 1/5 e letra Times. No que respeita à bibliografia, deve ser apresentada da seguinte forma:

RADOS, Milan, Mundo e Comunicação, Afrontamento, 1ª Edição, Porto, 2008

Já as citações, aparecem fora dos rodapés, no corpo do texto, da seguinte forma:

(Rados, Mundo e Comunicação, p.18, 2008)

CP - Aula 1

I - INTRODUÇÃO

A cadeira de Ciência Política vai desenvolver-se em torno de duas grandes áreas. A primeira, a ciência, diz respeito à explicação do mundo que nos rodeia, tem 300 anos na forma como nós a conhecemos, desde os movimentos Iluministas, onde tem tudo que ser afirmado dando prova. Já a Filosofia, que embora seja "a mãe de todas as ciências", explica a realidade pela razão, ao passo que a religião explica o mundo de forma dogmática: nada precisa de ser verificado a não ser pela .

A Ciência Política é recente, nasce no séc.XX e provém da Sociologia. O seu objecto de investigação é a política. Na sua obra de 1953, "The Political System", David Easton fala de uma ciência política que tende a ser exacta enquanto possível, ou seja, introduz uma matematização da ciência política. Com o Behaviorismo, a Ciência Política vai buscar à Psicologia alguns fundamentos mas pretende ser mais exacta, mais concreta. Pretende saber "quem ganha e porquê". Investigações no âmbito da Ciência Política levam a conclusões muito precisas, como por exemplo de que dois terços dos eleitores votam da mesma forma que vota a sua família. Este facto leva a que o debate de candidatos eleitorais se faça para uma franja de 20% de indecisos.

Outro exemplo, nos Estados Unidos apenas 10% se interessam pela política externa, o que condiciona também as campanhas eleitorais. Estes são factos científicos do Behaviorismo, que utiliza precisamente métodos científicos para que as nossas afirmações sejam o mais exactas possível.

A cadeira de Ciência Política vai abordar temas como o processo político, eleições, partidos políticos e governo.

HMC - Aula 5

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
4.2. Seis anos de guerra

De entre todos na Europa, Adolf Hitler está particularmente interessado na guerra, pois só assim conseguirá a sua ambição de obter o "espaço vital" para a Alemanha. Esta é uma teoria que provém do Darwinismo e que Hitler adapta à Alemanha desta altura: se um estado cresce e produz riqueza, este precisa também de mais espaço físico. As fronteiras existentes, segundo Hitler, são fronteiras administrativas impostas e não "naturais", pelo que inicia o III Reich, numa Alemanha que está a crescer e precisa de mais espaço. O III Reich proclama a união de toda a raça ariana num só estado.

Ao mesmo tempo, Mussolini afirma também a sua intenção de expandir o território italiano e começa por atacar a Somália, onde vence facilmente, e a Etiópia, onde os italianos são derrotados. Estes dois eram estados independentes africanos, um do pouco espaço em África onde nenhuma potência europeia estava instalada. Do outro lado do mundo, também o Japão emerge e consegue conquistar alguns territórios e assim expandir-se.

Contudo é Hitler, na Primavera de 1938, que anexa a Áustria, onde ninguém se opôe ao seu caminho e este é bem recebido. Esta invasão é legitimada com o facto dos austríacos serem também raça ariana e daí terem que pertencer ao seu espaço vital. Porém, no Outono de 1938, quando Hitler invade a Checoslováquia com a justificação de que lá vive uma minoria alemã, a resposta ocidental já não é tranquila. No Outono de 1938, em Munique, Hitler, Mussolini, Chamberlain e o primeiro ministro francês, Edouard Daladier, reunem-se e, sem questionar os checoslovacos, autorizam a Alemanha a entrar no país, numa chamada política de apaziguamento. Como resultado, Hitler ocupou um terço da Checoslováquia no Outono e na Primavera já tinha ocupado o resto.

É por fim com a invasão da Polónia, onde vivem cerca de 5 a 7 milhões de alemães, no dia 1 de Setembro de 1939, que o Reino Unido e a França declaram guerra a Hitler. De novo, uma guerra começa entre as principais potências da Europa, afectando quase todos os países europeus (à excepção de Portugal, Espanha, Suiça e Suécia) e alastrando-se a todo o mundo, seja em cenários de guerra como na Ásia e Norte de África, seja com o envio de tropas para o combate, como no caso da China e América do Sul.

As razões da guerra prendiam-se com questões expansionistas económicas mas também com questões políticas. Aparecem alternativas, nesta altura, que são entre si irreconciliáveis: Fascismo e Comunismo querem ambos derrubar o Liberalismo. Hitler é nesta altura quem quer a guerra pois pretende rever o Tratado de Versalhes a favor da Alemanha.

A guerra com França e Reino Unido não acontece antes de Abril de 1940. Os seis meses de guerra iminente justificam-se no facto de ambos os lados estarem a preparar-se para as batalhas. Franceses e britânicos colocam-se em locais estratégicos: os primeiros junto da linha Maginot, construída com barragens, bunkers e canais, ao largo da fronteira com a Alemanha e no decorrer da primeira guerra; os segundos desembarcam na Bretanha. Porém, Hitler entra pelo meio dos dois, pelas montanhas do Luxemburgo, e surpreende todos, impondo uma derrota humilhante para franceses e ingleses. Tão humilhante que Hitler manda trazer a locomotiva onde antes havia sido assinada a capitulação da Alemanha para assinar agora a capitulação francesa. Como se não fosse suficiente, ainda entra em parada em Paris, no dia 14 de Junho, humilhando o orgulho nacional francês. Quanto aos britânicos, fogem de regresso a Inglaterra naquilo que Churchill chamou de "retirada heróica".

Hitler venceu nesta fase da guerra pois possuía uma nova táctica bélica, suportada por aviões mais rápidos e com melhor performance, para além de blindados que conquistam vários quilómetros por dia. Esta "blitzkrieg" ou "guerra relâmpago" semeia, de facto, o pânico com os aviões e a seguir a entrada dos blindados a espalhar o terror. Com esta vantagem na tecnologia, Hitler facilmente derrota os seus inimigos.

Depois da derrota em França, esta é ocupada pela Alemanha. Surge o plano "Le Petain", que é um pacto de colaboração com Hitler que cria duas Franças: uma em que governa Hitler e outra, chamada "França de Vichy", em que governam apoiantes nazis. Há ainda uma terceira França que continua a lutar, liderada pelo general Charles de Gaulle, que se refugia na Argélia e diz, a partir daí, que França nunca se irá render.

Na Primavera seguinte, Hitler quer o Reino Unido e embora não possua uma marinha de guerra, surge com os seus submarinos, aperfeiçoados e tecnologicamente muito mais avançados. Hitler utiliza os aviões para bombardear o Reino Unido e tem início, de facto, a guerra entre estes dois. É nesta altura que Churchill profere o discurso que o tornou famoso, dizendo aos britânicos que não pode prometer muito mas que promete "suor, sangue e lágrimas". O Reino Unido envia as suas crianças para o Norte, onde os aviões nazis não chegam, deixando em Londres os homens adultos, que pouco mais faziam do que esconder-se. Contudo, Inglaterra está a resistir a Hitler que, enquanto não consegue vencer aí, vira-se para o outro lado: em 1941, Hitler planeia atacar a União Soviética.

No entanto, os sérvios derrubavam o governo pró-Hitler e instalavam um governo pró-Churchill em plenos Balcãs. Também os gregos derrotam o exército italiano que os atacara. Hitler tem que prestar atenção a estas duas situações nos Balcãs, perdendo cerca de três meses nessa região antes de atacar a União Soviética. Foram três meses preciosos, uma vez que a invasão estava prevista na Primavera e Verão, de forma a não repetir o fracasso de Napoleão e sucumbir perante o Inverno soviético de temperaturas de 40 graus negativos, que gelavam os blindados e aviões e provocavam a morte massiva dos soldados.

A operação contra a União Soviética começa assim no dia 21 de Julho de 1941. O país está despreparado para a guerra pois na sua escalada pelo poder, Estaline enviou para a Sibéria todos os generais que se lhe opunham: o Exército Vermelho está praticamente sem generais tácticos. Assim, a vitória de Hitler na União Soviética é esmagadora e os russos limitam-se a fugir para dentro do seu país. Em 1942, a chegada das tropas alemães à linha estabelecida de não agressão, faz explodir a guerra entre a União Soviética e a Alemanha, prolongando-a ao longo de todo esse ano. Contudo, o avanço alemão é travado na tal linha divisória (próxima a Estalingrado, protegendo Moscovo) e o Inverno russo começa a enfraquecer as tropas alemãs. Na investida contra a União Soviética, Roménia, Bulgária, Noruega e vários outros países combatem contra Estaline ao lado de Hitler. Só a Roménia, envia 250 mil soldados para as batalhas.

Ao mesmo tempo, em África, travam-se também batalhas sangrentas. De um lado o Egipto que embora fosse independente desde 1923 era totalmente britânico, com o seu exército lá instalado, e a Argélia, Tunísia e Marrocos, pertencentes a França. No meio destes, a Líbia, que foi ocupada pela Itália no início do séc.XX mas que não representava grande interesse por se tratar de um território pobre. Serve agora de base às tropas de Mussolini, que querem expandir-se quer para a Argélia francesa, quer para o Egipto britânico. Está então criada aqui a guerra entre italianos e franceses e ingleses. Na Argélia, a confusão de autoridade leva a que não se saiba a que França pertence o território: se a Hitler, se a Vichy, se à outra França livre de De Gaulle.

A guerra aqui corre mal aos italianos, pelo que os alemães enviam para o local o general Rommel, a "raposa do deserto" que consegue fazer sérios estragos no exército francês e inglês apenas com um exército pequeno mas uma estratégia ideal de ataque no deserto.

Do outro lado, tem início, a 7 de Dezembro de 1941, a guerra entre os Estados Unidos e o Japão. Após a I Guerra, os americanos retiraram-se da cena internacional, voltando ao seu isolacionismo para viverem assim os Loucos Anos 20. Quando Hitler ataca a Europa, os americanos não fazem nada, reforçando a sua neutralidade na guerra. Enviam apenas uma pequena ajuda aos britânicos, que é liquidada pelos submarinos alemães imediatamente. Quanto ao Japão, era um país fechado aos ocidentais até à segunda metade do séc. XIX, quando se abre e industrializa, aparecendo no séc.XX como uma nova potência industrial e militar, com novas e aperfeiçoadas tácticas. No início do séc.XX, o Japão conquista a Coreia e depois a Machúria, na China, partindo depois na década de 30 para a conquista de outras regiões na China.

De facto, o Japão começa a rivalizar em termos económicos com os Estados Unidos e o conflito é iminente e esperado durante três décadas. Os japoneses não queriam a guerra e sabem que em comparação com os Estados Unidos perderiam: querem apenas petróleo e sugerem aos EUA um acordo de fornecimento de petróleo, facto que os americanos não aceitam pois é já no petróleo que se baseia a sua produção e por conseguinte a sua economia. Como retaliação, os japoneses atacam a base militar americana de Pearl Harbour. Os americanos respondem ao ataque e começa assim a guerra na Ásia. Paralelamente, uma força nacionalista chinesa é financiada pelos Estados Unidos, com o suposto intuito de lutar contra os japoneses mas lutando antes contra uma força comunista financiada pela União Soviética.

Poucos ou nenhuns povos escapam, assim, à 2ª Grande Guerra Mundial.

O fim da guerra dá-se em primeiro lugar em África. Em 1942, os norte-americanos intervêm ali ao lado dos ingleses e franceses. Charles de Gaulle assume o comando na Argélia. Em 1943, os aliados cercam o exército italiano na Tunísia e acaba desta forma a guerra no Norte de África.

Na Europa, no Inverno de 42/43, Estaline derrota Hitler na Batalha de Stalingrado, onde se encontrava cercado pelos alemães. O exército vermelho resiste, conseguindo cercar o exército alemão e obrigando-o à rendição. Este é o momento em que a sorte vira na guerra: o exército vermelho manda Hitler recuar e é sabido a partir deste momento quem ganhou a 2ª Guerra Mundial na Europa. A vitória de Estaline deve-se ao facto da União Soviética possuir uma indústria pesada e energética que lhe permitem a supremacia de armamento. Antes da guerra começar, Estaline, com os seus planos quinquenais, enviara para lá dos Urais, onde nenhum avião bélico chegava, todas as fábricas russas, trabalhando em segurança. Os cientistas e engenheiros russos estão na Sibéria, com condições privilegiadas de construir a guerra, criando armamento e aviões ainda hoje considerados de alto desenvolvimento tecnológico.

Após o recuo soviético, Estaline pede aos ocidentais que ataquem Hitler pela outra frente. E é em 6 de Julho de 1944, no Dia D, que o exército aliado faz a invasão do território francês, cercando Hitler por duas frentes: uma na Rússia e outra no Ocidente. Após o suicídio de Hitler, em Maio de 1945, é assinada a capitulação das tropas pelos generais nazis, sendo hoje comemorado na Europa o dia 9 de Maio como o dia da Paz, da Europa, etc.

No entanto, na Ásia continuava a guerra, com os japoneses a oferecer muita resistência aos americanos. Os japoneses são inferiores em número mas o fanatismo da defesa, em que muitas vezes o suicídio é preferível à rendição, coloca-os em vantagem. A 6 de Agosto de 1945, o presidente norte-americano Truman toma a decisão de experimentar a bomba atómica sobre a cidade de Hiroshima e no dia 8 de Agosto sobre Nagasaki, no Japão. Como consequência, uma devastação sem precedentes e a capitulação do exército japonês, a 15 de Agosto de 1945.

O resultado da guerra cifrou-se em cerca de 40 a 52 milhões de mortos, a maioria dele civis por causa da guerra de bombardeamentos aéreos. O país com mais vítimas foi a União Soviética, com 20 milhões, seguidos de 8 milhões de chineses, 5 milhões de alemães, 5 milhões de polacos, 2 milhões de japoneses, um milhão e meio de jugoslavos, 535.000 franceses, 500.000 gregos, 450.000 italianos, 350.000 britânicos e entre 250 a 300 mil norte-americanos. No caso de Itália, Mussolini é derrubado em 1943 mas a partir desse verão decorre também uma guerra civil entre fascistas e anti-fascistas, dando origem a uma divisão entre direita e esquerda que persiste até hoje.

As vítimas da guerra estenderam-se muito além do cenário bélico. No fim da guerra, cerca de 11 milhões de alemães foram expulsos dos seus países, como retaliação ao que fizeram com outros povos durante a guerra. Polónia, Checoslováquia e Ucrânia foram alguns dos países que expulsaram os alemães após o fim do conflito.

As outras vítimas da guerra foram os 7 milhões de civis que morreram em campos de concentração. Estes existiram um pouco por toda a parte, fosse para os judeus, ciganos, eslavos e outros grupos considerados menores pelos nazis, fosse para os norte-americanos descendentes de japoneses, nos Estados Unidos, onde 150.000 pessoas foram postas em campos de concentração. Estes, captam mão-de-obra escrava, onde em condições sub-humanas de alimentação e higiene, milhões de judeus e ciganos foram particularmente mal tratados. Estima-se que tenham morrido em campos de concentração promovidos pelos nazis, cerca de 6 milhões de judeus e uma quantidade não confirmada de ciganos.

A segunda guerra mundial foi uma guerra de alianças globais, com a aliança entre liberais e comunistas contra os fascistas. Provocou alteração de fronteiras, com a Rússia a tentar reaver os territórios perdidos na I Guerra e a Polónia, por exemplo, a mudar a sua configuração. Foi uma guerra de destruição total: Hitler bombardeia e destrói Londres, os Aliados destroem cidades inteiras na Alemanha, os americanos dizimam com as bombas atómicas. Tratou-se do maior conflito da História da Humanidade, que começa com uma luta entre diferentes ideologias de organização do mundo.

08/10/08

HMC - Aula 4

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
4.1. Causas da guerra
4.1.1. Grande recessão económica (1929)
4.1.2. Socialismo (comunismo)
4.1.3. Fascismo

No decorrer da I Guerra Mundial, dá-se uma revolução e surge uma alternativa ao Liberalismo político dos outros países. Essa revolução acontece na Rússia, em 1917 e chama-se a "Revolução Bolchevique". A palavra "bolchoi" significa, em russo, "grande, maior". Quanto aos bolcheviques, provêm da linha mais radical do Partido Social Democrata russo, que tem nos mencheviques os seus representantes mais conservadores. A primeira Revolução ocorre em Fevereiro e tem em vista derrubar o regime czarista russo, facto que consegue realizar com sucesso. Forma-se um governo provisório entre mencheviques e membros do antigo governo do czar, que conhece o seu fim aquando da segunda Revolução, também chamada "Revolução de Outubro" (que de facto aconteceu a 7 de Novembro do calendário gregoriano). Nesta Revolução, os bolcheviques chegam ao poder e iniciam aquela que é também chamada de "revolução comunista": o partido social democrata passa a chamar-se Partido Comunista.

O que propôe, então, a revolução russa? A I Guerra não foi de todo favorável à Rússia, que viu o seu território ser cortado e o descontentamento crescer entre a sua população. Esta revolução propôe uma alteração radical baseada no pensamento de Karl Marx. Marx é um sociólogo alemão cuja crítica económica é uma alternativa ao capitalismo. A sua filosofia, a "dialética materialista", diz que não existe Deus, tudo acontece no âmbito da matéria, facto que coloca todas as religiões em conflito com Marx.

A ideia sociológica do marxismo diz que na sociedade há conflito e que a propriedade privada está no centro desse conflito: os que detêm a propriedade apropriam-se também da mais-valia, ou seja, da produção, que deveria pertencer a quem trabalha, a quem produz. O proprietário apropria-se do lucro proveniente da produção, criando uma relação de exploração entre o proprietário e o proletariado que se vem repetindo ao longo da História, seja na escravidão, no feudalismo ou no capitalismo. Segundo Marx, a exploração é permanente. Segundo a análise marxista, o capitalismo trouxe desenvolvimento mas existe um número reduzido de proprietários e um número imenso de proletariado. Mesmo actualmente, verifica-se que tudo se encaminha para um número ínfimo de pessoas e instituições deter a quase totalidade da propriedade e lucro mundial. No futuro, tudo aponta que as fusões sucessivas de bancos levem à existência de apenas dois ou três bancos mundiais...

Marx sugere que o proletariado tome conta da sociedade quando exista um momento de alto desenvolvimento tecnológico. Que seja abolida a propriedade privada mas que sejam mantidas as eleições democráticas. No início, Marx defende uma mudança pela revolução agressiva mas numa fase posterior vai dizer que a revolução seria melhor se feita de uma forma gradual e progressiva.

Quanto à Rússia, adapta o pensamento de Marx fundindo-o com o de Lenine e criando o marxismo-leninismo. Este é uma ditadura do proletariado: os bolcheviques são uma pequena facção da população e têm a necessidade de, enquanto grupo minoritário, se fazerem chegar ao poder e governar. A proposta de Lenine passa por um regime totalitário numa democracia formal e popular. De facto, na União Soviética existem eleições mas só existe um candidato para cada lugar proposto e esse candidato é o do Partido Comunista... Trata-se assim, para todos os efeitos, de um sistema de partido único. Na prática, e graças a Lenine, a União Soviética transforma-se numa ditadura do Partido Comunista sobre o resto do povo.

No que respeita à economia, os bolcheviques acreditam que a economia de mercado não funcionam e por isso esta é substituída pela economia de planeamento. Por exemplo, se cada pessoa necessita de dois pares de sapatos por ano, produz-se só dois pares de sapatos iguais para todos. Assim evita-se a inflação e a perturbação da economia na sociedade. Já com Estaline ("Homem de Aço"), o planeamento é quinquenal, ou seja, são elaborados planos de cinco anos para determinadas produções, anulando-se de vez toda e qualquer propriedade privada: esta pertence inteiramente é totalmente dirigida pelos soviets.

Esta revolução na Rússia de Lenine tem precedentes um pouco por toda a Europa, seja em Berlim, em Itália e em Budapeste onde surgem repúblicas proletárias, seja nas intensas greves que se fazem sentir em França e Itália, motivadas pelos comunistas. No resto da Europa, vive-se um medo terrível de que a revolução russa se espalhe por toda a Europa, facto que faz os liberais organizarem-se para travar a escalada dos socialistas.

A alternativa de direita às políticas de esquerda de Marx é a contra-revolução fascista. O Fascismo nasce em Itália, com Benito Mussolini. Uma Itália que sai frustrada da I Guerra, onde embora tenha ficado do lado dos vencedores não ganha nada. Mussolini forma e apresenta a idologia fascista, com forças paramilitares identificadas por fardas com cores iguais e carregando sempre um bastão. Chega ao poder com uma Marcha sobre Roma, através de um golpe de estado clássico e populista.

O Fascismo é um sistema que funciona através de corporações, formas de organização social que existiram no Antigo Regime e que se trata de organizações de pessoas segundo os mesmos interesses ou actividades. As corporações favorecem as classes privilegiadas e agradam à Igreja, que apoia o renascimento de um sistema corporativo. O Papa Pio XI chega inclusivé a fazer negócios com Mussolini e o actual Papa pertenceu ao Partido Nazi alemão. Esta democracia orgânica imposta pelo fascismo proclama então que a única forma de organizar a sociedade é através de corporativas de pescadores, indústria, trabalhadores, famílias, etc... As corporativas seriam responsáveis por fazer chegar ao governo os interesses do povo e o governo tomaria então as suas decisões. Acontece, porém, o contrário, e o governo é que passa a utilizar as corporações para exercer nelas a sua força e influência.

A nível político, o fascismo é autoritário, com um único partido e impedindo de qualquer forma os outros de chegarem ao poder (ex: Humberto Delgado, em Portugal). Há a exaltação de um líder que é deusificado: o Fuhrer, o Duce, têm poderes considerados quase divinos. Este culto do líder é acompanhado de uma forte propaganda, dando-lhe o poder total no estado. A nível económico, existe propriedade privada numa economia tendencialmente planeada e controlada pelo governo. Aqui, a diferença basilar com o comunismo de Lenine é a existência de propriedade privada no controlo da economia.

Depois de Mussolini tomar o poder em Itália, muitos outros países adoptam o fascismo, como Espanha e Portugal (a Constituição de 1933 de Salazar é uma cópia da italiana) e depois a Grécia, Hungria (onde é um almirante que comanda uma nação sem mar...), a Polónia, entre outros. Todos estes países unem-se para impedir a subida dos socialistas ao poder.

Entre todos estes países onde o fascismo vingou, um merece especial atenção: a Alemanha. O Nazismo de Adolf Hitler é um tipo de fascismo que deve ser observado de forma diferente. Nazismo significa nacional socialismo e o partido que o defende é o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Hitler é um austríaco, combatente da I Grande Guerra, que se convence de que a Alemanha não perdeu na guerra mas antes foi traída por um grupo de generais e obrigada assim a capitular. Depois de uma tentativa violenta de tomar o poder sair frustrada, Hitler é preso e na prisão escreve "Mein Kampf" ("A Minha Luta").

Paralelamente, a Alemanha de Weimar vive segundo leis democráticas ditadas pelas potências vencedoras da guerra a partir de 1919. Porém, com o pagamento de indemnizações a que está sujeita, a Alemanha vive em permanente crise económica. Em 1933, um quilo de pão custa um quilo de marcos: como consequência da crise de 29, a Alemanha tem uma inflação galopante, que ocupa toda e qualquer preocupação económica e que torna infrutífero qualquer trabalho.

Hitler diz que a Alemanha deve levantar a cabeça e responsabiliza os judeus e os comunistas pela traição: os primeiros porque não permitem que haja dinheiro para o exército e os segundos porque defendem o pacifismo e se opôem à guerra armada. Segundo Hitler, sem os judeus e sem os comunistas, a Alemanha teria ganho a guerra.

Para levantar a moral dos alemães, Hitler convence-os de que provêm de uma raça muito especial, a raça ariana, povo que terá sido a raça eleita para governar o mundo e que utiliza a cruz suástica. Esta ideia tem como base a teoria de Nietzche de que há entre os homens alguns que são superiores, super-homens sem limites, que se sobrepôem a Deus. Hitler deduziu que estes super-homens são os germânicos. Defende que a raça ariana deve ser pura por isso deve ser feita uma limpeza étnica afastando judeus, deficientes, homossexuais, ciganos, alcoólicos, entre outros grupos considerados por Hitler não merecedores. Para Hitler, a raça pura tem que dominar o mundo todo.

Em 1933, Hitler ganha as eleições alemãs com 33,7% dos votos, de forma democrática. O Presidente da República dá-lhe mandato para formar governo e assim Hitler chega legalmente ao poder. O regime de Hitler é uma ditadura de partido único, em que existe a exaltação do líder, a propaganda terrívelmente eficaz, a organização de manifestações em massa, como desfiles e jogos e o controlo cerrado da economia. No início, de forma a recuperar o ânimo dos alemães, Hitler toma uma medida socialista de organizar grandes obras públicas num país destruído pela guerra. Desta forma, Hitler consegue o apoio da maioria dos alemães.

A causa directa da ascensão dos regimes totalitários ao poder tem a ver com a crise económica. A essência da economia é a produção e esta compreende quatro fases distintas: a alta de produção, a recessão, a estagnação e a retoma. Uma crise acontece quando há uma situação na economia que desestabiliza todo o sitema e isto dá-se quando três sectores da economia não funcionam pelo menos durante dois semestres. Por exemplo, quando não se produz, não se vende ou não se pode pagar. A crise económica não é o fim de um modelo económico mas esse fim pode acontecer: se a crise durar mais de seis meses, é possível que determinado sistema colapse. Por conseguinte, quando as economias estão todas dependentes e interligadas, um problema específico num país, num sector, num tipo de banco, afecta indirectamente o mundo todo.

Em 1929, dá-se a Grande Depressão, caracterizada por uma baixa acentuada da produção causada pela falência de bancos: não havendo dinheiro, não se produz. A falta de produção leva ao desemprego, que por si só leva à ausência de compra e venda. Surge acompanhada por uma recessão caracterizada por uma prolongada baixa de crescimento. As crises no Antigo Regime surgiam devido a causas naturais; as grandes crises contemporâneas (anos 30, 70 e actualidade) são cíclicas e permanentes no capitalismo. São causadas por ausência de liquidez devido ao crédito mal parado.

Em 1929, dá-se a crise bolsista de Wall Street. Wall Street detém um terço da riqueza mundial, num sistema de acções que assenta na divisão do lucro de determinada empresa por vários accionistas. Toda a riqueza é, assim, transformada em papéis. A falência dos bancos, causada devido à quebra de liquidez de capital proveniente do crédito, faz com que não exista lucro e assim o preço pago por cada acção seja cada vez mais baixo. Ao aperceber-se da crise, os accionistas têm tendência a vender as suas acções antes que desçam ainda mais, dando origem a excesso de oferta desses títulos no mercado, logo a diminuição do seu valor. Com a falência dos bancos e dos seus accionistas, dá-se também a quebra de produção, que depende do capital dos bancos.

A Europa está deprimida, os regimes totalitários venceram em grande parte dos países. As cartas estão lançadas para o aparecimento de um novo conflito mundial.

07/10/08

HMC - Aula 3

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL *
3.1. Causas da guerra
3.1.1.Imperialismo
3.1.2. Hegemonia do Império Britânico
3.1.3. Desafio do "Segundo Reich"
3.2. Quatro anos de guerra
3.3. Conferência de Versalhes

As alterações decorridas do século XIX trazem à Europa uma nova configuração, no plano político e económico. Graças ao advento da indústria, a economia cresce, permitindo às populações viverem uma "belle époque" de progresso, liberdade e luxo, num clima de prosperidade que parece inabalável. Na Europa do início do século XX existem 5 principais potências: em primeiro lugar, o Império Britânico, a potência hegemónica, o estado mais poderoso "onde o Sol nunca se pôe". É a maior potência colonial, a maior praça financeira, onde existem os maiores bancos, onde é ditada a moda, as tendências e onde o luxo assume a sua face mais visível. Rival do Império Britânico, a potência desafiadora, a Alemanha, que depois da unificação é o maior produtor da Europa, possuindo também a maior indústria. Aparece em terceiro lugar a França, com as suas colónias e em quarto a Rússia, com o seu imenso império, cujo trans-siberiano demora duas semanas a percorrer, de São Petersburgo a Vladivostok. Por fim, a Itália unificada com a sua indústria em pleno desenvolvimento.

Tratam-se todas de potências liberalistas, mesmo a Rússia que começa a introduzir o liberalismo aos poucos. Uns são repúblicas, outros monarquias constitucionais, com maior ou menor nível de democracia mas transversais a nível político, onde não existem grandes disparidades. A razão que está por trás da I Guerra Mundial não é uma razão política mas sim económica. As nações apercebem-se de que para haver grande lucro tem que existir um grande território uma vez que a especialização requer um grande espaço de expansão: as colónias servem para escoar os produtos produzidos, obtendo lucro, mas também para obter as matérias primas. Só um império produz lucro e prosperidade e daí a formação de grandes impérios europeus, a conquista de novas colónias, incondicionalmente ligadas à metrópole. No início do século XX, imperialismo é sinónimo de lucro, de crescimento económico. O termo tem nesta altura uma carga económica.

E como estavam distribuídas as colónias? Reino Unido e França detinham a maior parte das colónias noutros continentes, deixando Alemanha e Itália sem territórios mas com necessidade de obter matérias primas e escoar produtos em excesso. Nesta altura, a Alemanha desenvolve a sua marinha comercial que vai vender produtos às colónias alheias, facto que desagrada os britânicos. Mais tarde, a Alemanha desenvolve também a marinha de guerra, para proteger a marinha comercial. Para os impérios instalados e para os estados emergentes, a exportação é questão de sobrevivência e daí ter aumentado exponencialmente a tensão entre o Reino Unido e a Alemanha, que se confrontam em conflitos menores nos Urais e Marrocos, promovem propaganda um contra o outro e desafiam-se em incidentes que duram duas décadas.

Também a Itália reivindica colónias para si. E quanto à Áustria, disputa com os enfraquecidos turcos o território dos Balcãs (balcã é montanha em turco), local estratégico de ligação entre a Europa e o Médio Oriente. A Áustria também não tem colónias, sendo os Balcãs o único espaço físico que têm para se alargar. Porém, os Balcãs estão também na mira da Rússia, que quer controlar o território de forma a chegar a mar quente e aberto e assim conseguir comércio com o resto do mundo. Todos estes factos provocam um aumento permanente da tensão e da rivalidade económica.

A última gota cai em Sarajevo. No dia 28 de Junho de 1914, o Arquiduque Franz Ferdinand visita a cidade de Sarajevo. Vinte e oito de Junho é considerado um dia nacional de extrema importância para os sérvios e a visita é tomada como provocação. O arquiduque, praticamente o imperador da Austria-Hungria uma vez que o imperador real se encontra débil e enfraquecido, é assassinado por um sérvio em Sarajevo juntamente com a sua família e no decorrer da visita. Nunca se provou o envolvimento do governo sérvio no atentado. No entanto, a Áustria culpa a Sérvia por este assassinato e faz ao país um ultimato de 30 pontos, entre os quais a Sérvia aceita todos menos um. Esse ponto não aceite diz respeito à autorização que a Áustria pretende ter para entrar na Sérvia sempre que necessário de forma a procurar terroristas. A Sérvia encara este ponto como uma rendição passiva e não aceita. A 31 de Agosto, a Áustria começa a bombardear Belgrado (cidade que sofrerá mais 2 bombardeamentos no século XX, 1941 e 1999).

Antes deste episódio, a Europa assistira a uma série de pactos não agressão e de protecção entre nações. A Rússia assume-se como protectora dos Balcãs e no decorrer do bombardeamento, declara guerra à Áustria. A França e o Reino Unido chegam, após séculos de guerras, a um "entendimento cordial" ao qual a Rússia também adere, formando o "Triple Entente". Também a Áustria, Alemanha e Itália, que partilham o mesmo problema da falta de colónias, formam uma aliança, o "Eixo Central" ou Tríplice Aliança, com vista a protegerem-se mutuamente. São dois blocos militares, com tensões entre si prontas a explodir.

E que após o bombardeamento de Belgrado, vão declarando guerra uns aos outros, tanto que pelo início de Setembro de 1914 todos estão em guerra. A Áustria com a Sérvia e com a Rússia, a Alemanha com a Rússia e França, a França com a Áustria e até o Reino Unido, que após a invasão alemã dos neutrais Bélgica e Holanda, teme a aproximação ao seu território e declara essas ocupações como graves violações dos direitos do Homem. Existem duas grandes frentes de guerra: no Báltico ao Mar Negro, com a Rússia e os seus 15 milhões de soldados a debater-se contra a Alemanha e a outra frente, entre o Eixo Central (à excepção de Itália) e o império franco-britânico. São guerras de trincheiras, com pouca tecnologia, que duram quatro anos e onde não se consegue nenhuma vantagem em batalhas campais.

Toda a economia está, no entanto, a ser orientada para a guerra, tanto que em 1916 a Rússia, por exemplo, já não suporta a guerra e começa a ter sérios problemas de insatisfação interna. Tanto que em 1917, Lenine, que já havia advertido para os perigos do Imperialismo económico, consegue derrubar o governo e decide acabar com a participação da Rússia na guerra. Assim, Lenine organiza negociações e Paz separada com a Alemanha e a Áustria. Como consequência, a Rússia perde vários territórios (Finlândia, Polónia, Ucrânia, Moldávia...) mas vê a Alemanha retirar todo o exército dos Balcãs e direccioná-lo para o Ocidente. Facto que deixa a França e o Reino Unidos temendo pelo desenvolvimento da guerra.

É nesta altura que aparecem os Estados Unidos. Estes entram na guerra e transferem para a Europa 2 milhões de soldados, com tanques e metralhadoras que lhes permitem guerrear 24 sobre 24 horas, trazendo à Europa uma supremacia tecnológica que vai colocá-los em vantagem na guerra. Trata-se de uma entrada crucial que resolve a sorte da I Guerra Mundial.

Antes, os Estados Unidos tinham uma política externa de isolacionismo, no século XIX com James Monroe. Interessava-lhes conquistar território no Sul, ao México, tendo para isso um pequeno exército que facilmente derrotava as intenções mexicanas. Metade do México foi "roubado", assim como foram conquistadas as terras índias na sua totalidade. O isolamento serviu-lhes também para desenvolver a sua indústria, tornando-se uma potência mundial, com um crescimento anual económico na ordem dos 100 por cento.

A razão formal do ataque americano à Alemanha teve na base o afundamento do navio americano "Lusitânia". Os americanos defendiam a liberdade, o liberalismo, e apontaram o Kaiser alemão como responsável da guerra, o único a cultivá-la e a expressão do terror. De facto, Guilherme II tem uma atitude déspota ao despedir o Chanceler Bismarck e psicologicamente tem uma relação de ódio e amor com os britânicos uma vez que a sua mãe é britânica e sua avó a raínha Vitória: Guilherme II culpa a sua mãe pelo facto de ser aleijado num braço, devido a consecutivos casamentos entre familiares e torna-se assim um homem difícil e intransigente, num estilo autocrático e pomposo. No entanto, nem tudo é mau nesta Alemanha: há apenas 10% de analfabetos, as mulheres já podem votar e toda a cultura apreciada no resto do mundo provém dos países do Eixo Central.

Não obstante, os EUA iniciam uma campanha anti-alemã, proibindo tudo o que é alemão incluindo as composições de Beethoven. Isto de forma a convencer os americanos a entrar na guerra. Mas qual é a razão real do envolvimento dos EUA na I Guerra Mundial? A economia. A fim de poderem fazer frente à Alemanha, França e Reino Unido tinham-se endividado em créditos com os EUA para a produção de materiais de guerra. A Alemanha, por seu lado, produtora de ferro, não quer os créditos dos Estados Unidos. Depois da desistência da Rússia, os EUA têm que assegurar que os seus devedores ganham a guerra, sob pena de perderem todo o investimento. Essa intervenção leva ao rendimento da Alemanha, em 11 de Novembro de 1918.

Na I Guerra Mundial, os perdedores são a Rússia, que vê serem-lhe retirados vários territórios, a Alemanha, que além de perder algum território, tem que pagar indemnizações extraordinárias (é averbado um "dictat" de condições à Alemanha) e o Império Austro-Húngaro, que se dissolve, dando origem ao aparecimento de muitos estados. Quanto à Italia, a sua neutralidade foi causada pela promessa do Reino Unido em dar-lhe territórios austríacos. No fim da guerra, as suas ambições no Adriático ficaram aquém das expectativas: não perdeu mas não ganhou também.

Quando aos vencedores, a França e o Reino Unido preservam as suas colónias, embora este último tenha visto a sua situação económica entrar em declínio acentuado, numa rota descendente que nunca mais foi invertida. Os grandes vencedores foram os Estados Unidos, que durante a guerra duplicaram a sua produção e cresceram 100% em cada um dos quatro anos. Com a guerra, os Estados Unidos ganharam tanto que "enlouqueceram", dando origem aos "loucos anos 20" em que o dinheiro sobrava e era gasto sem limites.

Entre as consequências da I Guerra Mundial, está também a formação de novos estados, como a Checoslováquia, a Polónia, a Finlândia, entre outros, tendo duplicado o número de estados na Europa. A Conferência de Versalhes, na famosa Sala de Espelhos do palácio, convoca os 28 países vencedores da guerra. Incluindo Portugal. Portugal vê-se "obrigado" pelo Reino Unido a enviar cerca de 50 mil soldados para a Flandres. Ou entravam na guerra ao lado do Reino Unido ou este invadia o país. Perante o facto, o governo envia as tropas para a Flandres, onde devido ao frio e à falta de preparação, apenas numa batalha morreram metade dos soldados portugueses.

A figura que lidera a Conferência de Versalhes, em 1919, é Woodrow Wilson, presidente norte-americano, intelectual democrata. O presidente questionou-se acerca da razão porque os europeus, de diferentes países, etnias e religiões, vivam em Paz nos Estados Unidos e não se entendiam na Europa. Encontra resposta a esta pergunta na existência de lei que impede as rivalidades e os obriga a conviver. Segundo Wilson, se houver lei os povos entendem-se e nesse sentido há-que instituir um tribunal e uma organização com capacidade de obrigar os estados a respeitar esta decisão.

É então criada uma lei com 14 pontos, 8 obrigatórios e 6 com implementação no decorrer do tempo, entre os quais a igualdade dos povos, diplomacia aberta, liberdade de comércio, etc. Reforça-se as competências do Tribunal Internacional de Justiça e é criada a Sociedade das Nações, com sede em Genebra e com vista à manutenção da Paz. O papel da Sociedade das Nações vê-se, no entanto, bastante limitado: de volta aos EUA, Wilson não consegue que a adesão dos EUA à SN seja aceite no Congresso. E com a ausência dos EUA e da União Soviética, a Sociedade das Nações é incapaz de decidir e o idealismo wilsoniano falha.

A I Guerra Mundial deixa marcas intensas na sociedade: vinte anos depois da guerra ainda não havia nascimentos suficientes em França, por exemplo. A guerra acabou mas os tempos que se avizinham na Europa são muito conturbados e difíceis.